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Recuperação de aprendizagens. O trabalho está em curso

05-06-2021 | Educare

Ministério da Educação lançou recomendações em agosto do ano passado para consolidar matérias. As escolas estão a trabalhar e a adaptar estratégias. Os primeiros anos do 1.º Ciclo exigem máxima atenção.
Sara R. Oliveira

Imagem: Educare

Agosto de 2020, depois de um ano letivo atípico devido a uma pandemia que obrigou a encerrar todas as escolas, com alunos e professores em casa, ensino à distância generalizado pela primeira vez no país, o Ministério da Educação (ME) lançava um manual de orientações para recuperar e consolidar aprendizagens. Conselhos, propostas, recomendações e indicações para planear o ano letivo que se avizinhava. A ideia de uma recuperação adequada às necessidades de cada aluno, com metodologias diversificadas, era bastante clara.

O ano letivo de 2020/2021 arrancou e o trabalho começou. Manuel Pereira, professor, diretor de agrupamento, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), viu nesse manual um guia com orientações e reafirma que as escolas não são todas iguais, são diferentes entre si, têm as suas particularidades. O que funciona numa pode não funcionar noutra. “Há aprendizagens que se perderam numas escolas e noutras nem por isso”, repara.

“As escolas tinham de definir quais as áreas curriculares mais prejudicadas. Cada escola fez esse trabalho e está a fazê-lo. O que está perdido, o que ficou para trás, o que é preciso trabalhar no futuro”, refere ao EDUCARE.PT. Em seu entender, os alunos dos dois primeiros anos do 1.º Ciclo do Ensino Básico foram bastante prejudicados e precisarão de muito apoio nos próximos anos. Até porque, lembra, “há uma idade para aprender com menos dificuldades”. Esse apoio de recuperação deve, em sua perspetiva, ser orientado sobretudo para a leitura e para a escrita.

Filinto Lima, professor, diretor escolar, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), garante que os estabelecimentos de ensino estão a trabalhar nesse sentido, na recuperação e consolidação de aprendizagens, que têm estratégias para “atacar” o problema, que não estão paradas. Há um ponto que faz questão de sublinhar sobre o assunto. Recuperar aprendizagens não significa que os professores não fizeram o seu trabalho durante o ensino à distância. Pelo contrário. O esforço e a dedicação num contexto inédito devem ser valorizados. “O trabalho que os professores fizeram, durante esse período, valeu muito”, diz ao EDUCARE.PT.

No entanto, as circunstâncias não permitiram um ano letivo normal. “Também se perdeu muito em relação a matérias que não foram ensinadas devidamente”, observa. O foco deve estar nos anos iniciais do ensino obrigatório. “Nos primeiros dois anos do 1.º Ciclo, justifica-se um trabalho suplementar nas escolas direcionado para esses alunos”. Para Filinto Lima, sugestões e recomendações são bem-vindas, mas cada escola conhece os cantos da sua casa. “Deixem-nos trabalhar nos termos da autonomia pedagógica que dizem que nós temos”.

Trabalho cooperativo, percursos individualizados

O documento Orientações para a Recuperação e Consolidação das Aprendizagens ao Longo do Ano Letivo de 2020/2021 indicava o que era necessário fazer, desde um diagnóstico preciso à gestão mais flexível do currículo, à definição de um plano de atuação mais intenso nas primeiras semanas de aulas. A tutela admitia o aumento de desigualdades, dificuldades no acesso às tecnologias e recursos digitais, falta de acompanhamento em casa, e pedia estratégias de organização escolar e atividades para promover o sentimento de pertença à turma e à escola, socialização, empatia, colaboração, partilha.

“Sendo expectável que, no mesmo grupo de alunos, haja diferentes graus de apropriação das aprendizagens, o trabalho cooperativo entre discentes afigura-se como uma boa estratégia para todos aprenderem ou consolidarem aprendizagens”, referia o ME no manual, dando autonomia às escolas para organizarem percursos individualizados “que permitam configurar diferentes grupos de alunos na sala de aula ou noutros espaços de aprendizagem”. Nos cursos profissionais, e como a suspensão das atividades letivas presenciais impediu a realização da formação em contexto de trabalho, deveria ser dada prioridade a esse aspeto.

Depois disso, já no atual ano letivo, o ME quis perceber o que se passou durante o ensino à distância e avançou com um estudo de diagnóstico das aprendizagens. Esta aferição foi feita através de uma avaliação diagnóstica externa a alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos, cerca de mil estudantes de cada ano de escolaridade, de mais de 300 escolas para assegurar uma diversidade de contextos escolares, sociais e económicos. A conclusão geral é que os alunos apresentam graves dificuldades na concretização de tarefas básicas. Os resultados mostram também que o ensino à distância não se compara ao ensino presencial, é bastante mais frágil, e que os alunos mais novos são os mais penalizados ao nível da preparação base em Português e Matemática.

Na literacia da leitura e da informação, em todos os anos avaliados, um elevado número de alunos não conseguiu responder com sucesso, indo pouco além de identificar e reorganizar informação num texto. Na literacia matemática, o cenário foi pior, a maioria não conseguiu resolver problemas de complexidade reduzida. Na literacia científica verificou-se uma ligeira melhoria, sobretudo no 3.º ano, mas o panorama piora nos anos restantes sem respostas corretas à maioria das questões.

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