Recreios transformam-se em ''pátios inertes e acéticos''

09-10-2017

Arquiteto paisagista e professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro refere que é necessário pensar nos recreios escolares como locais de aprendizagem, num tempo em que os estímulos digitais se sobrepõem aos naturais.
Fonte: Educare (Sara R. Oliveira)

Imagem: Educare

Frederico Meireles, arquiteto paisagista, professor e investigador, diretor do mestrado em Arquitetura Paisagista da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real, debruçou-se sobre três estudos realizados no âmbito desse mestrado que coordena e escreveu o texto “As crianças na cidade”. É um texto que alerta para o que são os recreios das escolas hoje em dia, sem espaço suficiente, sem diversidade de elementos para as brincadeiras dos mais novos. “O excesso de programação do dia a dia não permite tempo para a descoberta e para a criatividade. Os ambientes de brincadeira e de estudo estão mais próximos e contidos do que nunca e a variedade de estímulos no ambiente natural está a ser substituída por outros, de natureza digital, limitando as oportunidades para a atividade física”, sublinha nesse texto.

As crianças passam cada vez mais tempo fechadas entre quatro paredes, como presas fáceis do sedentarismo, enleadas numa “rotina perigosa”. O professor faz várias observações acerca de algumas práticas diárias que influenciam os mais pequenos e as suas maneiras de ver o mundo. “Todos parecem preferir e prescrever espaços infantis vigiados, seguros e pavimentados. O jardim-escola já não é jardim e os recreios das escolas têm sido transformados em pátios inertes e acéticos, qual presídio! Os recintos escolares não são providos de espaço suficiente, nem tão-pouco de diversidade de elementos”, escreve. “O mais grave é que hoje se faz a apologia do dia da escola, com pouco mais do que uma hora de intervalo. Não é salubre quando falta espaço e tempo livre, em conteúdo e diversidade!”, acrescenta.

Os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento da criança, os estímulos vêm de todo o lado e são constantes, as relações com o meio envolvente são permanentes, e os estudos confirmam que os espaços exteriores e os recreios para crianças são importantes nesse processo de crescimento. Todavia, a questão não parece ter a atenção que precisa e merece. Frederico Meireles lembra que não há dúvidas que o recreio estimula a atividade, desenvolve o movimento, reduz o stress, diminui a ansiedade de aprender, estimula reações, desenvolve todos os tipos de perceção, ensina como utilizar o corpo e a mente. Há muitos benefícios, portanto, e, nesse sentido, os espaços para brincar no exterior devem ter vários ambientes, estimular a descoberta, estar em contacto com a vegetação, promover a saúde e o bem-estar. “Só as crianças que são sujeitas a espaços verdes e paisagens de qualidade poderão, enquanto adultos, recorrer a estes espaços para restaurar a sua atenção e energia”, observa.

O problema é que os recreios nem sempre são olhados como espaços de aprendizagem. Um estudo da UTAD e do Instituto da Criança, centrado no planeamento do recreio escolar, concluiu que as escolas têm baixos índices de espaços verdes por criança, uma elevada exposição solar durante o período quente, e poucos objetos confortáveis. No seu texto, o professor da UTAD cita uma das conclusões dessa pesquisa. “Os elementos construídos são insatisfatórios quanto ao desempenho no desenvolvimento das capacidades e competências da criança, revelando insuficiências notórias, quer quanto ao número de equipamentos, quer face às necessidades dos utilizadores, o que, no final, se traduz por uma baixa capacidade de fomentar o desenvolvimento de novas atividades e brincadeiras, impelindo essa competência e responsabilidade para a criança.”

Mais intervalos, menos atividade no exterior

Há mais intervalos no 1.º Ciclo do Ensino Básico, mas poucas atividades letivas programadas para o exterior. Há escolas requalificadas, mas poucos projetos que deem a devida importância aos recreios como espaços onde a educação também acontece, e acontece a vários níveis. Em 2011, outro estudo da UTAD fazia uma avaliação dos espaços exteriores de 20 escolas secundárias intervencionadas no âmbito do Programa Parque Escolar. Conclusão: “A área total de recreio nas escolas secundárias nacionais é muito reduzida”. Ou seja, cerca de 80% inferior ao cenário considerado ideal. Mais área edificada, menos espaços no exterior. Ficou então a sugestão de, no futuro, ter em conta a quantidade de alunos para precaver recreios proporcionais e adequados.

As cidades são desenhadas por adultos que pensam sobretudo em adultos. A promoção de uma vida saudável é planeada por adultos a pensarem fundamentalmente em adultos. E as crianças? “As nossas ruas e avenidas são, por norma, desenhadas para o automóvel, mas raramente permitem um acesso confortável e atrativo entre casa e escola! Consequentemente, o espaço da rua é hoje visto, quer pelos pais quer pelas próprias crianças, como espaço escuro e complicado. Devia, ao invés, ser o lugar para a atividade física e transporte ativo da criança, bem como o espaço para a interação social, mais ou menos programada, com benefícios para o seu desenvolvimento a todos os níveis”, escreve no texto.

A UTAD tem uma outra pesquisa que aborda a mobilidade e interação social das crianças na cidade. O professor recorda esse estudo que concluiu que o grau de independência das crianças “é inexistente” e que as suas vidas são mediadas pelos adultos que temem pela segurança e acabam por inibir oportunidades e vontades para a descoberta e para a experiência. “As crianças parecem conceber a rua como o espaço do automóvel, recalcando a conceção da sociedade.” A investigação avisa que é urgente que as ruas se centrem nos peões e especificamente nas crianças nos percursos entre casa e escola.

Há várias recomendações para que a mobilidade das crianças na cidade não seja um assunto menor, para um maior empenho na sensibilização de todos em torno desta temática. Até porque, como sustenta Frederico Meireles, o estudo prova que “a grande maioria das crianças, se tivesse voz no momento da tomada de decisão sobre o seu modo de deslocação, optaria pelos modos suaves”. “O desenho do espaço exterior inclusivo das crianças deve ser ecologicamente correto, esteticamente atrativo e reforçar o sentido de comunidade, o que de resto constitui o sistema de valores da arquitetura paisagista”, repara.

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