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O 3.º período presencial não deverá ser para todos

03-04-2020 | Público / Artigo de opinião de Rui Gualdino Cardoso

O 3.º período está em risco? Não. A questão não é se o 3.º período está em risco, mas como vai funcionar.

Imagem: Mário Cruz / Lusa

Nunca ninguém tinha posto a hipótese, prática, de que uma pandemia poderia parar o país. Todos vimos filmes sobre o tema, mas se há estudos científicos sobre o tema não estão suficientemente divulgados.

As escolas encerraram a 16 de março quando a situação não estava ainda clara como poderia progredir. A população tem tido acesso a informação mais pormenorizada, desde essa data, e está mais atenta à evolução da situação. Neste momento, constroem-se cenários para todas as eventualidades, a área da educação não é exceção, aliás, é uma das mais discutidas.

A decisão do encerramento das escolas não foi tomada de animo leve, era uma medida crucial para o combate à propagação descontrolada da pandemia. A população foi aconselhada a ficar em casa e foram tomadas medidas para que as crianças não ficassem em casa sozinhas. Os professores tentaram colmatar, como puderam e sabia, a falta de ensino presencial até à interrupção da Páscoa e começam agora a preparar soluções para o 3.º período.

O 3.º período está em risco? Não. A questão não é se o 3.º período está em risco, mas como vai funcionar.

Os agrupamentos desdobram-se em plataformas e outras formas de funcionamento das aulas durante o próximo período, mas, uma coisa é já certa, este período não vai ser igual para todos.

O primeiro-ministro apontou a data de 4 de maio para a tomada de uma decisão definitiva sobre o que se poderá passar, mas as contingências de um retorno à normalidade são muitas para podermos dizer que serão aplicadas a todos os níveis de ensino. Neste momento é algo de impensável. O retorno à normalidade vai- se fazer de uma forma gradual e com todos os cuidados possíveis e imaginários. Quando o retorno à escola se der vão ter que se tomar medidas para que a segunda onda não se inicie nos estabelecimentos de ensino. As crianças vão ter que se habituar a novas rotinas e cuidados para os quais não estão ainda preparados. O uso de máscara, a higiene constante das mãos, a diminuição do contacto com colegas e professores, o distanciamento preventivo… vai ter que se continuar a fazer prevenção. Ora, as crianças não estão nem vão estar preparadas para isso. Reabrir as escolas cedo demais poderá significar um apressar da chegada da segunda onda de que tanto se começa a falar.

Se a 4 de maio o Governo decidir pelo retorno ao regime presencial, estou certo que será apenas para os alunos do 12.º ano. Estes alunos terão de realizar os exames de ingresso ao Ensino Superior, mas não se trata só disso, eles já têm uma consciência suficientemente madura para poderem, por si, tomar precauções e mesmo assim o risco é enorme. O retorno de todos os alunos, de todos os níveis de ensino está fora de questão. As crianças têm uma necessidade inata de contato, essa necessidade iria por em risco toda uma comunidade escolar. Os alunos mais velhos, além de já se poderem responsabilizar pelos seus atos, nunca poderão ter um retorno à normalidade de uma aula, há medidas a tomar. A distância de segurança dentro da sala de aula é uma delas, terão que se desdobrar turmas, criar novos horários, ter o cuidado da inexistência de contacto, ou minimiza-lo, entre alunos, professores e funcionários. Teremos que repensar a sociedade escolar para que não se criem novas bolsas de transmissão dentro das escolas.

O 3.º período vai ser atípico, mas será uma oportunidade para responder à função de formar os nossos alunos de forma a que a sociedade saia enriquecida destes tempos conturbados.

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